terça-feira, 15 de maio de 2012

Um Conjúrio Mátrio

Pôr do Sol em Veneza _ Claude Monet


nas notas duras
a rispidez
d'uma sinceramente
terna


nas horas duras
o infindo abraço
laço em nó por sangue
eterno


nos tempos tristes
a mão severa
os calos, são adocicados
sempiternos


nos tempos felizes
a mão branda
anda junta de uns olhos
Maternos

sábado, 12 de maio de 2012

"Sum non pirata. Praedonum furtum scaphas" _ Julius Caesar, Imperator.





Senhoras, senhores e animais mágicos da sexta dimensão.

Tendo em vista uma melhor e mais fácil apropriação de bens culturais em rede, este site, mais humilde que painel de jipe, se propôs a lhes enviar alguns honestos sites para download de informações, de modo a facilitar o encontro com seus arquivos preferidos/indicados/quaisquer. Vamos aos comentados:

Um que tenha é um site de música brasileira com um acervo inadjetivável de bons músicos

Umquetenha.org


No Ebooks Grátis você encontra arquivos em PDF para leitura em vários gêneros, de quadrinhos, a clássicos da literatura e receitas culinárias

Ebooksgratis.com.br


Files Tube é feito uma mãe para aqueles que procuram úsica/jogos/chinforonfolas na internet.



Filestube.com

Bom download.



"με μεγάλη δύναμη, έρχεται μεγάλη ευθύνη"  _ Tio Ben

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Pedra Preta gritou

http://dainfagerholm.blogspot.it/


Parto para partes e
Levo
         leve
                  lata de
pedras
             pretas
                           pontudas

Medonhos mantras
no seu bater

      Sorvem água
barro  (...)  piche

Ainda as carrego no
caminho do
     meio do
caminho

Não desisto

Prefiro as pedras
outras pedras
as pedras de vidro
O tendão aberto
e Eu
Estilhaço

na encruzilhada

por: Dain Fagerholm


algumas
coisas
são do caminho
na pedra,
na redenção,
meus sonhos
medonhos.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Uma ode mínima, a uma grande garota



_ Mas como que faz?
_Escreve-se uma prosa! _ mas ela não se chama rosa...
_ Então escreve um poema, mesmo ela num chamando Moema, faz uma poesia, mesmo ela não se chamando Luzia. _ ...
_ Faz mais ou menos assim:

"um pedaço vivo de intenção
boa,
vibração inquieta, impetuosa
moça,
intenção contínua que
ecoa,
pequena senhora, grande
pessoa

se pudesse rimar,
rimaria, (ri aí maria!)
seu nome com chama,
alabama, holograma, diagrama
quilograma, trama, melodrama...
mas nunca com
calma, que aí
desentoa

se pudesse te dar presente
seriam  os carinhos
das patas grandes
de uma mamãe
leoa

seria a última filha da última
petúnia nos jardins de saturno
e te levava pra ver tudo isso
numa grande
canoa"

_ É uma pena eu não saber rimar.
_ Sim, é uma pena.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

liberdade, liberdade, liberdade



eles me regulam o humor. eles regulam do que tenho horror. eles regulam meu cigarro, pra me regular o catarro. eles me regulam a inteligência, eles me negam a ciência. eles me regulam a competência. eles me regulam a saudade. eles me regulam a distância. eles me regulam o que sai no papel da minha mão. eles regulam minha escrita de porão. eles me regulam a residência. eles me regulam a consistência. eles me regulam as putas, os cavalos, os partos e as cicutas. eles me regulam os horários, com vinte minutos pra comer, rezar e foder. eles me regulam cervejas de seiscentos eme-éle. eles me regulam o torpor, a ebriez e a revelação. eles me regulam a maciez das coxas. eles me regulam a estupidez das moças. eles me regulam o carinho das outras. eles me regulam o medo. eles me regulam a consciência. eles me regulam os mares, os morros e as marias. eles me regulam quantas escovações devo fazer por dia. eles regulam a quantas escavações eu devo me submeter por ano. eles regulam quantos esporros eu devo dar por dia. eles regulam quantos metros devo ter, quantos centímetros devo ter, a quantos quilômetros devo estar. eles regulam quantos pingos deve ter meu mijo. eles regulam quantos has devem ter meus sorrisos. eles regulam o quanto de tinta deve ter meus riscos. eles regulam quantas voltas devo dar no meu fusca. eles regulam quantos ridículos devo passar. eles me regulam quantas crianças devo fazer. eles regulam o quanto de palhaço devo atingir. eles regulam minha pressa, meu prazo e meu perdão. eles me regulam a gordura dalcatra, do arroz os grãos. eles me regulam as folhas de alface e os bagos do feijão. eles me regulam o samba, a saída e a senhora. eles me regulam luiza, clarisse e aurora. eles me regulam canalhisse. eles me regulam babaquice. eles regulam minha velhice. eles me regulam alice, patrícia e a dora. eles me regulam a sorte. eles me regulam a morte. eles me regulam o corte. eles me regulam, senhor. sim. eles me regulam a dor.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Lenga nº 300 _ \sqrt{-1}



Na cabeça
uma flor ecoa o mal
insistente lado umbral
um brado, um lado
igual

Nas estantes
um livro come os povos
mortos contam seus medos
um som, um saldo
nupcial

No caderno
o branco papel
um lápis agá dois
um rabisco, um quadro
surreal

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Se podes ler, repara: A cegueira e a cegueira de Saramago



Com seis graus de astigmatismo desde sempre, a possibilidade de perder o sentido da visão se tornou para mim um pesadelo constante. Ao ler ensaio sobre a cegueira, esse pesadelo cresceu e essa cegueira, que antes representava para mim não achar as lentes ao acordar, ganhou outro significado.
Não me restaram dúvidas que a experiência causada por Saramago é como um teleporte para uma realidade alternativa, tão plausível, que causa espanto. Através de uma linguagem que requer do leitor grande imersão, Ensaio sobre a cegueira conseguiu, por diversas vezes, que as letras no papel fossem clareando, tom a tom, caminhando para uma brancura insuportável a ponto que tive de me afastar do livro e chacoalhar a cabeça algumas vezes, apertar bem os olhos, para só então voltar à leitura.
Leitura essa que é muito apoiada por um narrador incerto, de linhagem sanguínea kafkiana, muito pouco confiável. Ele mais cogita do que conta, não só porque reflete sobre os possíveis caminhos que a trama deveria ou não seguir, mas porque participa da cegueira ativamente e parece tatear junto dos personagens sem nome as paredes do sanatório, do supermercado e das ruas impossivelmente brancas.
O cinismo, a atenção e entrega requeridos, além dos espaços labirínticos, mesmo que vistos pelos olhos da única personagem a conservar a visão, vão transformando o leitor à medida que ele avança no texto. Passei a sentir texturas, cheiros e a ouvir barulhos que não ouvia, enfim passei a reparar, pelo menos num sentido que fala ao leitor o prelúdio do livro, mesmo que por aquele breve e tortuoso momento que passei com o texto.
Numa descrição visceral dos caminhos que seguiam os personagens por aquele mundo caótico, o livro foi me levando para uma reflexão junto daquele ritmo estranho e novo. Saramago conseguiu, com sua cegueira branca, abrir em mim a possibilidade de uma visão ampla e privilegiada, mas pediu um preço: Noites de sono e todos os meus conceitos jogados no lixo.
Resta saber se você terá a mesma disposição.

Saldades

Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tactil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!
_ Augusto dos Anjos


Há num'alma extinta cinco dedos em riste
palmados em dor extensa
num golpe

Mindões anelários médiuns indica dores
poligares desligados na tomada
forçam um movimento orquestrado
para cem violinos desafinados

Gritam um rasgo ao peito
O aDeus a ateus novos
que a lembrança do que viria
com seu custo ardiloso
e à vista
cria a golpes no canal lacrimal
da memória do futuro que não se veio

de pé resta O adeus
não até logo
que a lógica se foi em súplicas
e uma boa e invisível fita adesiva
dermoabrasiva
fez questão de tapar

Os escombros fazem questão
de emergir do túmulo
zumbis inoportunos do ontem
se confundem
com os fetos mortos do amanhã
que teimam em revolta a sair da boca

Resta matar não vivos
esses que ainda não sabem morrer de novo
enquanto se despede em pé a alma extinta





*Pintura de Colin Harbt _ Decomposição da memória