terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Inerência

Extremity de Emilio Gomariz


É preciso respirar com olhos atentos as mulheres com nomes de flor. É preciso que o nariz lhes toque a pele, que se sinta os perfumes com gosto de luzes. É preciso ouvir as notas doces de amendoim torrado, os tons suaves e amargos de lavanda.
É preciso correr

É preciso correr para um céu, um túmulo, uma caverna. É preciso escrever um filho, plantar uma idéia, escrever uma árvore por dia. É preciso dar tempo ao tempo que lhe toma tempo, num tique taque de tempo invisível. É preciso correr uma maratona ao redor de si mesmo.
É preciso rastejar

É preciso sorrir gentilmente aos covardes, maldizer os hérois, ironizar os palhaços. É preciso comer, um minuto por dia, um minuto por dia. É preciso entender os versos de Rosa, a prosa de Pessoa, o sabe-se-lá o que de José Paulo Paes. É preciso viver feliz na miséria e na dor e esquecer mulheres com nome de flor.
É preciso parar

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Ícaro


Caem-me por terra as coisas do ar
prendo-me num bunker secreto
entre quatro grades brancas
faminto de toda a sorte de sensações

Tanto pra falar e as paredes seguem caladas!

Para ocupar-me a boca
Como um prato de minhas angústias
um prato fundo todo de vidro e corte
tudo é silencioso e agora é vermelho

Cavo uma saída com as próprias mãos
deixo pedaços de unhas e de meu pesadelo
deixo aos gritos todo meu ventrículo esquerdo

Levo de lá um cinismo barato, cortes
um maço de cigarros
um novo ceticismo

Agora sou oficialmente perversão

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Concreto


Desato a entender vossos versos.
Eles
dançam
pueris
logo acima e
em mim.

A me comer, lentamente, a carne
como cães raivosos,

a quem dou nomes bonitos e trato como meus.

encobrindo

Essa, A inconstância, as nuvens...
só pode ser a senhora do vestido cinza,

Embalada em todo cinza

E que fala por metáforas

Todas as três

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Praia de Santo Apollo – Segunda parte

Quando ainda muito menino, morei no pé da Grande Serra que rodeia Santo Apollo, e bem de longe via o mar e o farol me chamando. Era de lá que vinham as estórias e lendas que permeavam todos na família. No primeiro sopro de noite, eu aproveitava as primeiras horas deitado no telhado da casa, olhando a queda das estrelas, seu momento de último esplendor em labaredas espirais até serem consumidas, descendo lentas pelo teto da avenida principal até a praia, iluminando o caminho, de um longe sem medida, até se tornarem um pontinho claro, quente e reluzente.

Assistia atento, aprendia sobre o ocaso antes do fim da noite, antes do tombo, antes de dormir.

Nós da Serra nos reuníamos muitos dias, meus irmãos, minha mãe, meus vizinhosm só para ouvir os mais velhos contando as histórias que ouviram de seus antepassados sobre os seres que procuram justo a queda dos astros para entenderem a encruzilhada do mundo. Lucy sempre falava de seus músicos, de um dos óculos redondinhos que a observou de longe no farol, enquanto desciam os astros. Coralina falava dos homens cavalgando cavalos bravos que pareciam consumirem a si mesmos, adentrando o mar. A senhora Urânia, que adorava ver os que vestiam turbantes, sempre um mais jovem, de tempos em tempos, medindo toda a cena, repetindo com detalhes os mapas, os esquadros e os compassos. Muitas eram as histórias, da encruzilhada deixada na areia para um violonista rir de seu destino, de um magro monge que sorria ao bater das ondas, de uma senhora que buscou visões por mil luas para não morrer nas mãos de seu marido.

De tantas boas histórias, a minha favorita era a do homem sobre a pedra e da pedra sob o homem, como intitulou minha avó, e fez a todos entender por completo os fins e os meios da cena repetida e que rodeava a cultura de mais de milhões de anos que vivíamos. Naquele tempo o então jovem coletor Isaac era guiado pelo já cego Hermes e se perguntava todos os dias como era possível que caíssem estrelas tão fortes. Em dia em que essa ideia lhe abateuviolentamente, apareceu-lhe um sorridente senhor, careca em óculos fundos e sangue cheio de ferro, que via a cenas desde a manhã, da mesma pedra do farol. Ele lhe entregou um punhado de esferas que a cheia levou até a base de seu sítio de descanso dizendo-lhe para pensar na pedra, para entender seu engima.

Isaac deixou que seu mestre seguisse e perguntou sobre o porquê da alegria, logo em cima de uma pedra tão instável e áspera, que ainda iria se dissolver no ar ainda mais rápido que as Esferas. O senhor lhe respondeu de pronto, sem muito ruminar a idéia, que haviam de ser mil pedras em um caminho longo e eterno, e que, até para os astros, o ciclo deve ser continuado. Se por um homem sempre à esquerda, pela mão de anjos, na tenebrosa luz ou para dizer aos bois que a hora de acordar chegou. Eram apenas retinas vendo e corações se perguntando, sempre no presente, sempre em um momento tão profano quanto o próprio presente. Se era assim tão passageiro, a queda das estrelas ou o dissolver de uma pedra, seu brinquedo de incomodar como a chamou, o importante mesmo era observar tudo para não esquecer. Se importar com o que vê.

Esse pensamento me levou a pensar nesses anos todos. Elas todas vão para os necessitados, se for permitido, criar outras estrelas, mesmo que imaginárias, dentro ou fora do universo, assim como criávamos todos os dias alí nas fogueiras de minha infância. Nesses anos todos vi mulheres de joelhos, pedindo conselhos e proteção aos outros, vi famintos agonizando em preces, vi reis caídos e plebeus gloriosos, dividindo vinho e lições. Era seu presente um ponto brilhante, ali seu conforto, ali o nascimento de um novo universo próprio e tão grande quanto aquele em que o céu da praia de Santo Apollo apontava.

Todos os meus dias, descalço e cercado de tantos mundos despertou em mim essa bravura no presente e, quando assim apareceu um menino que dizia ser todos os mundos daquela Esfera que tinha na mão, o treinei bem à beira da fogueira, para que ouvisse, logo em tempo e tanto quanto eu, todas as histórias de uma praia imensa e que absorvesse dali dos olhos, gestos e palavras de todos, a si mesmo diluído.

Para ele confidenciei que foi deste modo que despertou em mim a moça da pedra dos olhos brilhantes. Assim lhes conto meu destino, pois assim viu a pessoa de meu pupilo Caeiro, quando percebi o momento, logo antes, de terminarem as nebulosas por consumirem minhas vistas, peguei na mão de uma já senhora moça sentada na pedra e, nos mediando uma estrela em seu colo, nos dissolvemos no ar, levados pelo vento. Nós nos tornamos aquele presente que vimos desde o primeiro dia de minha vida coletando a história do universo.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ali, Thália


Thália Bela
Thália Boa
Thália toda engraçadinha

Thália talha corações alheios
Thália entalha ladrilhos
nos desavizados

Thália é alarde e alaúde, Thália é da nossa laia
Thália é só afago
Thália, labareda e lago, Thália, lado e oposto
Thália nunca chega amiúde
[e se
Thália de saia de roda, Thália roda com gosto de roda

Thália pintura, Thália ali,
Thália seu retrato no louvre
Thália alicia, Thália alia

Thália, entoo teu ato, dou ao teu retrato
[todo inexato
O tato do grato poeta

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Canto da beleza real de Janaína


A vi de longe cantar
em teu manto claro de mar
deixando o vento soprar
nas águas de cá e de lá
tecendo as rendas
um engenho de rendas
que vejo engendrar
E se não posso lhe chamar
te nomeio Janaina
da beleza real de menina
desde já

Antes que espante
[e vá se deitar
lhe digo com toda pressa e sem pensar
que os mesmos pés que pisam o chão devagar
sentindo o mover que a lua branca lhe dá
hão de pisar no fundo deste verde mar

E sou eu que vou te chamar
Janaína, quando eu iya deitar
Inaê que me traz acaçá
Janaína, quando eu iya deitar
Inaê que me faz descançar

E sou eu que vou te chamar
Janaína, quando eu iya deitar
Inaê que me traz acaçá
Janaína, quando eu iya deitar
Inaê que me faz descançar

 Para acompanhar a leitura

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Uma ode, uma Dríade


A Vejo
Algo como o vento
traz na graça das árvores
Uma infante beleza que agrada
a beijar-me o rosto em sua briza
seja em dias de sóis inexpugnáveis
e luas cheias de todos os versos possíveis
todas as rimas dizíveis e inventáveis
nessa boa razão de parar-me aqui
a observar os bons lampejos livres
de uma só rainha das árvores
movendo-se
a dançar
a sorrir
me entreter
pois sem vê-la
não há aqui poesia

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Algo do Mestre Oneiro






















Sua face vil lhe mostra em um sonho
Que a derradeira chama que arde em ventre de mulher
lhe pode ser mais sagrada que lágrimas de pobres demônios em terra
Não, não falo de maldade absoluta, o ardil, o sonho vão
Falo da natureza humana num vai e vem infinito
Entre sombras e grandeza
Entre sonhos e tristeza
Entre três mulheres que vigiam da lua
Entre meus olhos, que repouza um mar de razão e sentimento
Tão vil quanto a face mostrada naquele sonho
A pobreza, a putridão, a marca da besta
Que somos todos aqueles que se fazem
Num mundo morphéico nossa morada
E morremos por lá, esquecendo que a carne aquece a carne
E o sol levanta sem precisar
Pra olharmos num espelho
Que aquilo que produzimos ao dormir
Pode ser mais belo ou mais feio
Mas ainda é o real, que não é real
porém forte e novo
A cada segundo
Que morremos
e supitamos
um pouco
de nós

terça-feira, 6 de julho de 2010

Ditado de aogosto


'Salt Cellar' de Irina Brzeski


A colher se envolve de sopa e
[seu gosto já sobe pela minha mão

É o mesmo que sorver água do mar empoçada num dia de calor
[como engolir a consciência que arrebata para se sentir melhor

Algo que lembre a ressaca de um fim de carnaval
[subindo pela ponta dos tarsos e metatarsos

Que pune, alimenta e lava com o mesmo sal