quarta-feira, 26 de maio de 2010

Vai Crescente, se consumir no nada

A lua já se fez cheia nesse vinte e seis de maio. Não mais tem seu sorriso malicioso do gato de Alice. Não transborda seu cinismo, nem acompanha pouco escondida, como os covardes. Se tornou inteira, e em deslumbre me faz bater em postes e cair de escadas, do mesmo modo que me fazem os olhos de menina se fixando no nada. Em sua ida, poderia lhe entoar escárnio, lhe desdizer, lhe maldizer. Mas antes de comemorar seu fim, minha indesejada crescente, eu gostaria de homenagear-te pelos meus dias embaixo do teu sarcásmo:
Agradeço o diálogo sob sua luz, sentado no chão.
Agradeço pelos companheiros que festejaram sua ida, envoltos na benção dionisíaca.
Agradeço por me enterrar na terra vermelha daqui, por mais tempo.
Agradeço a confusão e a dissimulação dos dias em que me observou, na ironia que mo irradiava.
Agradeço os calafrios, que sanei com fumaça e espuma.
Agradeço meus tenis e calças e papos furados, que não valem nada.
Agradeço os trocados no meu bolso, que sumiram em sua presença.
Agradeço a poesia das apostilas técnicas.
Agradeço pela peça da engranagem que voltei a ser, não as desenho mais como fazia antes
Agradeço pela voz que foi me é tirada aos poucos, fazendo verter, novamente, letras em papel.
Agradeço o alimento que voa pelo esôfago enquanto o tempo come meu dia.
Agradeço os passeios sem paralelepípedos, e como soa essa palvra.
Agradeço a boa ventura de andar bêbedo às três da manhã.
Agradeço meu violão calado a dois anos.
Agradeço os calos no pé direito, no ouvido esquerdo, as olheiras e os litros de café.
Agradeço a macabra risada no círculo vermelho que a rodeava.
Agradeço, por fim, a ti, que mesmo odiada por mim, ainda me encanta.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Praia de Santo Apollo - Primeira Parte

Praia de Santo Apolo

Fui agraciado pela vida com o presente de coletar estrelas.
É um trabalho que ajuda a ver quão pequeno e quão grande pode ser o mundo. Compreender que da mesma substância a lhes servir de matéria nesse tempo inimaginável, também serviu de matéria para meus antepassados e para mim e para qualquer coisa que existe, saber que somos da mesma fonte, que essa entidade tão superior tem um pouco disso que forma minha carne e ossos. Saber também que todos os dias elas se vão depois de gastar toda a sua energia, elas caem do céu dançando leves, pouco antes do alvorecer, num fim como o de um velho homem cansado, pousando em seus devaneios, e vão para sua última viagem, mostra como as coisas se ligam em qualquer ponto do universo, um aprendizado perpétuo.
Dessa viagem, que o caminho não sei ao certo qual é, algumas são trazidas por mar e outras se afundam na areia desta praia de Santo Apolo, uma única praia, em todo Universo. Nesse ponto abençoado, posso pegar com as mãos nuas os pedaços de cosmos que colorem os céus de qualquer ponto da existência, algo que faço com orgulho e apreço infinitos.
Elas ainda se encontram quentes, brilhantes. Tem cheiros e cores diferentes, que parecem refletir o que elas viram em tanto tempo. Sou eu quem recolho as estrelas caídas do céu na praia de Santo Apolo, todos os dias antes que o meu sol, ainda amarelo e ainda eterno, ofusque o brilho das outras.
Nas duas horas que precedem o surgimento da carruagem de fogo de Santo Apolo, ando pela angra e pela praia descalço, para sentir o calor de alguma que talvez tenha se perdido. O calor de uma estrela quando chega na areia é como o da pele de uma pessoa. Ziggy, o coletor anterior a mim, me dizia que as estrelas lhe passavam a sensação de um colo de mulher: de sua mãe, de sua tia e dos amores que teve. Diferenciava cada uma pelo som que emitia quando a balançava, sabendo sua idade, seu lugar no espaço, seu antigo poder. Na juventude ele fora magro e muito branco, cabelos cor de fogo e olhos multicoloridos, sorriso enigmático e palavras certeiras. Com o passar do tempo foi se tornando um senhor de cabelos amarelos, queimado de sol pelas horas que passa observando o sol de sua cabana, e cego.
Nós os coletores ficamos cegos com o passar dos anos. No final só enxergamos o pequeno brilho das pontinhas na praia e seu balançar no mar até morrermos e sermos jogados no horizonte de nossa vista. Quando Ziggy tinha os cabelos já amarelando e os olhos se tornando cinza, me disse ao começar minha preparação que não havia nada melhor do cegar depois de ver a existência pelas estrelas, seus pontos balançando no mar era a nostalgia necessária para se terminar a vida.
Assim aconteceu com Yosef, Apolônio, Hermes, Leonardo, Isaac, Aldous, Marquéz, Alan, Neil e todos os outros antigos coletores que viram a história de tudo pelo viés do todo, pela esfera de uma estrela. Não diria que a cegueira é o que mais espero, melhor ainda é andar pela praia e ver quem admira a queda e a dança dos astros. Gente de todos os cantos do universo, gente desesperada que quando percebe o fim vindo até para uma estrela se sente melhor: gente partindo para outras vidas, vindo ver algo grandioso, gente que passa sem motivo e se depara com o maravilhoso aleatório, grandes pensadores ao ter uma boa ideia sempre se acham aqui, viajantes perdidos buscando algum farol, poetas com a pena ainda quente no papel, Ziggy e a moça da orla norte, já no fim de minha caminhada, que sempre me entrega a ultima estrela.
É engraçado perceber que as coisas se tornaram diferentes depois da primeira visita dela à orla norte, o fim da minha caminhada. Antes eram as estrelas no chão e na maré, a dor nas costas, que ainda não me incomoda tanto, as mochilas que enchiam e as vazias que começavam a se encher. Ao vê-la de pernas cruzadas na areia, os braços sustentando o tronco, o sorriso que nunca lhe saltava a boca, a pele mais branca com o reflexo das luas, o cabelo negro, sempre solto, que ondula com e como o mar, me prendi em um enigma: Por que desse sorriso não acabar? Parece a coisa mais serena que uma retina como a minha já pôde se fixar. Por que sempre segurar o último ponto celeste do dia? Me dá sempre como o bom augúrio de minha ida pra casa. É como se ela marcasse o fim da caminhada com bons presságios e sei que seus olhos não me farão procurar resposta de sua estada ali, ou se aquietarão pela cegueira inevitável. Me pergunto, ainda agora, se é mais bonito ver o reflexo do mar verde-a-clarear nos olhos da moça, ou se o brilho radiante do próprio astro em sua mão. Talvez seja para lá, para aqueles espelhos, que vão todas as estrelas quando caem, e não para inspirar os bons homens, onde brilharão mais uma vez, depois que esvazio minha mochila no farol ao lado das pedras onde fica a moça.
As valquírias, os anjos, bons espíritos, todos levam minha coleta, todos os dias quando o sol nasce para quem fez sua prece. De lá do alto a vejo olhando com o mesmo sorriso para cima, indo embora, saudando as entidades que saem pela grande janela de aço brilhante no alto da torre guia.

 Para acompanhar a leitura

terça-feira, 4 de maio de 2010

Ares e a Chuva

De quando em quando, perambulava pelas encostas um cão insosso
de nome Ares Suas patas cansadas, seus pelos frouxos, caindo de
tanto desgosto, soltando aspas, caspas e espaços mau dados em meu
texto
Fazendo tal zanzo insalubre, sobressaindo em seu azedo olhar sobre
os pobres que sentiam o sol, Ares era a essência do expurgo
Seu ladro malograva gravemente um ser sorridente
Seu cinismo mascarava as tardes cintilantes
Sua figura expunha o espírito néscio do mundo. Era Ares arauto de
ares amargos.
Chutava-se o cão? Maltrato, malgrado... mau-vago, não vale.
Marchava então, o desgraçado, pelos vales, pelos ralos
Por espanto, num dia sem encanto, vi o cão em prantos,
quando a chuva lhe acometeu.
Fora o véu das víuvas que no tempo da vil guerra, cascatas fez
chorar.
Fora o arco do guerreiro, que em um tiro certeiro, sua vida foi parar.
Fora contra Persas, Hunos e Mongóis
Fora cruzado em Harã, Ager, Azaz
Fora imperial, Farrapo, Cabano
Residia, porém um ser soberano, a chave da arca da história
Hoje das armas era Deus o dinheiro
E Ares chorava uma chuva que não era sua
Era esse o pesar do outrora deus agora cão.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Mais uma noite feliz no futuro


Não me lembro das horas, mas era tarde, com minhas fichas de cerveja no bolso segui para o Clandestino. Ia encontrar meus amigos longe de minha esposa, o que não fazia problema, nos odiávamos. Casei como determinava a nova constituição de 2018, algo como um acordo entre nós para não perdermos os empregos, fomos obrigados ter um filho e um trabalho que condizia com nossos diplomas.
_Senha ô bacana _ O Luiz era o leão de chácara agora, apesar de me conhecer, sempre falava o mesmo para não levantar suspeitas.
O bar era embaixo de uma loja de carros, "Benção sob rodas", o sob era um trocadilho que eu fiz para o Aquino, o dono da loja e do bar. Quando perguntado, ele dizia que foi um erro da gráfica.
_ Moloko loko? _ tentei não sorrir, mas sabia que mais tarde ele se juntaria a nós. A entrada era na frente de um ponto de ônibus, algo como um alçapão que só podia entrar um por vez. Por dentro o Clandestino era escuro e fechado, sem uma ventilação e sem cadeiras pesadas, eram caixotes que tinham bíblias dentro, assim como um palquinho com shows e músicos preparados para cantar os hinos de sucesso caso chegasse alguém.
Quanto a mim, meu diploma me dizia para ensinar português, ou melhor, uma lembrança do que era. Agora apenas passava as regras da língua, porque ninguém me escutava ou queria escutar sobre literatura que não a que vendia. A de verdade foi banida com a grande depressão dos livros de 22 e um exemplar de qualquer coisa do Sallinger ou do Orwell valia muito. Os bons foram jogados no lixo por não terem sentido mais e porque os pastores mandavam. Sebos são raros e a internet perdeu seu sentido com a conversão em massa do estado em laico e com a maioria de eleitos das igrejas protestantes para as cadeiras de qualquer posto político, assim como os donos das grandes empresas. Ah, a igreja católica terminou com a denúncia da pedofilia do papa em 2013.
_ Puxa um caixote, essa tá mais gelada _ Ciro agora é chefe de uma financeira, casado e com uma filha. Ia à mesma igreja que eu. Os cultos fechados eram reuniões de um grupo que era contra tudo aquilo. As passagens da bíblia eram códigos para nós.
Nossa rede tinha mais de cinqüenta mil adeptos e quase fomos pegos duas vezes por atividade violenta contra o estado, ou seja, a igreja.
_Tá nada, mas é cerveja (Trás um copo pro Daniel) _ Nelson é da mesma financeira do Ciro, mas ia na igreja dos pais da Ana, pra não se expor tanto como nós.
O engraçado é que sem um candidato forte para as eleições de 2010, um pastor do republicano cristão conseguiu muitos votos no Brasil, se tornando o estadista. Nosso país a primeira república a seguir essa idéia. Com a queda do catolicismo poucos anos depois, o mundo ocidental se tornou protestante.
_ Carregar a mercadoria pra cá tá foda cara _ Raphael dirige o mercadinho e seis lojas de informática com seu irmão, eles eram os fornecedores e lá se compram as ficha, Elyel trazia mais uma e meu copo.
A música que ouvíamos antes e que, gera suspeitas, foi guardada nos cartões de memória e é escutada baixinho aqui.
Entendam, não é uma repressão direta, mas uma moralização geral e fundada na compra e no que é correto. Sim, a mesma coisa, com outras palavras. A diferença é que ferir o estado implica em ferir o nome de Deus e conseqüentemente perder o empregos, ter a carteira de identidade desvalidada e ser vítima de um linchamento "sem suspeitos" por fanáticos religiosos "caçados" pelos policiais.
_ Saudades dos tempos do Soma, Doze e passeios pelo centro _ Elyel falava isso sempre que nos encontrávamos e pergunta do cigarro sempre vinha do Ciro...
_ Conseguiu algum "smoka" Daniel? Essa idéia de ser subversivo é que me faz acordar todo dia! _ e completava _ Penso na cabana que o Chuchu vive em Rondônia e no que ele tem feito lá com aquelas mulheres liberais e as festas do pessoal da comunidade _ O suspiro era geral _ Você ainda conseguia pra acender como incensos no seu quarto pelo menos, eu nem isso...
A verdade é que quando completei meus vinte e cinco anos surgiu a lei anti fumo de verdade, que através de uma vacina tornava qualquer contato com o tabaco causadora de náuseas. Lembro-me dos quilos que emagreci naquela época e que acendia cowboys vermelhos quando queria escrever. Hoje em dia custam vinte e cinco reais o maço e parei de contribuir com qualquer revista ou jornal dos dias de hoje. Aquilo me dava mais enjôo do que qualquer "incenso" que acendia.
Quando o Luiz e a Piaba (agora comendador Danilo) se sentaram, todos levantamos as "garras" e continuamos a velha falácia de sempre, relembrando os velhos tempos e colocando nossos problemas pra fora. Aos quarenta e alguns, vivendo presos ali e sem podermos deixar nossa vida, agora filhos e mulheres que alguns de nós gostávamos, ir pra Rondônia e acabar os dias por lá. Não deixamos a tristeza vir maior porque aquele era um dia especial, todos sabiam. O Gyn Vitória ia tocar. Tico odiava a guitarra de lá e deixava a sua na igreja onde freqüentava. Adorava colocar as notas do AC/DC ou do Black Sabbath entre "aleluias" e "louvados seja". Fui até ao palco, fiz um breve discurso sobre a falta de sentido dos impostos mais baixos, juntos com o dízimo, cobrados no arroz e no feijão. Cantei o suficiente: Pedrão com sua mão pesada e força da mesma época de moleques, Daniel ainda destruindo no baixo e o Tico sempre matador. Naquilo deixávamos as raivas de cada um, as frustrações enormes daqueles dias. Fomos aplaudidos de pé. Partimos todos por volta das duas da manhã. A desculpa era o que menos importava. Logo estaríamos em casa, com nossas mulheres e filhos, compartilhando de uma mesma tirania e de um Deus particular que nos fazia estar ali toda semana.
Mais uma noite feliz no futuro.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Fiel, a ela, posso dizer.

Algo como a viciosa vendeta dos homens eu diria, que é por razões remetentes a meus desejos feridos. Assim começo esta estória, pois ela faz juz aos fins que tomei e, portanto, me arrependi depois e aprendi minha lição.
Era tudo pelos fins, dizia a mim mesmo, sempre foi e sempre é para o homem tolo, ou seja todos nós.
E foi assim do meu acordar, ao meu levantar, pensando nela. Dela todos falavam. Eram poucas as chances de dar certo naquele momento, mas aos quinze anos a gente sempre dá muito valor em si mesmo, naquilo que faz. Pobre rapaz, era eu, de tênis furados e aspirações cheias, e fui de coragem e cara, como alguém que passa rente às trincheiras na primeira rande guerra, para chegar naquela que encerrava meus pensamentos e dizer depois aquilo que me era condizente.
Oh, quantas vezes lhe dei sustento, mas, muitas dessas vezes, nada poderia me fazer apoio ao seu lado, sendo, assim em um pequeno invólucro a cerrava, pelo medo de perdê-la o frescor. Abria-lhe ao mundo, e entender-me fazia todo ele. Como desejei, como sonhei fazer boas coisas ao seu lado, mas de muito em muito, me deixava ao chão, a chorar mágoas que fulminavam meu ser. Religiosamente, voltava a ela de qualquer modo.
Quantas foram as chances de deixá-la, e os conselhos de minha avó e outras pessoas de meu convívio, do quanto me importunava aquela relação. Era eu esperto, pensava, era eu o dominante.
E nossa relação envolvia dinheiro, o mais preocupante para eles. Todos os meus centavos, contados em prol dela, que a mim era santificada e sagrada, maculada eu diria, mas não me importava, mesmo que com outros ficasse. Me amaria? Talvez não. Valer a pena valia.
Era tudo jovem de mais, era intenso. As promessas e prospecções e aquela emoção que me gerava...
Até que me vi envolto em intrigas que a falta dela me gerava. As quedas me eram piores, e a culpa era só dela! Não minha falta de moderação, meu desejo juvenil. Como a culpei, como a culpei. Como quis que ela se afastasse, era algo que não me saia da cabeça, algo que me importunava. As quedas, as tão comuns faltas de senso, de noção. Ela me abria, se me entende, sentia mais solto, leve com ela, me libertava. Contudo resolvi largá-la! Privar sua compania, voltar ao normal de meu mundo.
Muitos foram os motivos, podes entender. A pouca idade, a confusão gerada por ela, minhas dúvidas e meus excessos para com ela começaram o desentendimento. Algo meu, penso que ela não via assim. Não tinha estes preconceitos. Comecei a tê-la como vilã e dela resolvi engendrar vingança, e a maior de todas elas era meu distanciamento, ignorá-la.
E assim, destemido e nada maduro me distanciei.
Foram dias difíceis, posso dizer com certeza, não sabia se tinha feito a coisa certa. Envolvia paixão, desejo intenso. Algo como mutilar-me, a privação era complicada. Por que tomei tal decisão? E por que me perdi nesse meu moralismo? Não poderia ser moralismo comum e bobo, achava. Todos e, em um ponto crítico de tudo, até mesmo eu, pensavámos assim. A distância era horrível, como cair num mar de pensamentos acépticos e caretas, aqueles contraditórios aos grandes pensadores a quem tanto reverênciava. O que diria Sartre ou Bodelaire de mim?
Me senti um idiota, mas os fins eram bons, sentia. Me ver firme e de pé de novo, sem as quedas tão comuns e o falso senso de ser mais do que era, mais livre, talvez mais real.
Então, felizmente, em um dia que me encontrava louco por meus problemas adolecentes cacetes, pensei melhor, fui iluminado.
Era ali, em seus braços que poderia voltar a mim, melhor e mais feliz. Sem a vergonha de ter cometido injustiça alguma. Então reatamos, sem recentimentos, às boas dos tempos pueris. E meu meu amor por ela floreceu novamente, maior e responsável. Meu vício por vingança se foi, era então contra mim mesmo percebi finalmente.
Hoje sou feliz com ela, cinco longos anos depois e, o tempo separados não é nada agora e assim lhe fiz uma declaração:
Cerveja amada, declaro aqui, eu sei que estará comigo quando qualquer mulher em sua confusão me trocar por outro, decidir me largar ou que tenho que beber menos. Digo ainda, dourada musa, como a meus bons amigos não canso de repetir, estará aqui para meus netos, em todas as minhas hisórias, apesar das deslealdades que vir a cometer quando me embriagar de ti. Prometo não partir de novo e espero que em meu caixão, sejas derramada sobre mim. Contigo aprendi que a vingança não compensa tanto e por isso peço aos que lerem esse meu relato para não abusarem de ti. És melhor quando apreciada.
Hoje sou fiel, pois sei, ela me será sempre.

sábado, 27 de março de 2010

Pavões

_ Nunês, traz-me um maço daquele ali _ o homem de calças brancas e pescoço inclinado para olhar as pessoas de cima chegava na porta do Bilisco, bar do bairro Sant'Antão.
_Burguezinho fresco da porra! _ Pensou o dono do bar, já trazendo o cigarro de mais de seis contos _ Vai contarvantagem e afastar o povo.
Mario era metido a new rich: Relógio de ouro da espessura do pulso, carro automático, sapatos de jacaré envernizados e terno branco com a camisa, de uma cor que sua mãe usa no batom, aberta. Sempre parava no botequim do bairro onde morava pontualmente as oito da noite das sextas-feiras, a seis anos, para contar suas glórias e se desfazer dos que ali passavam sua vida, todos os dias, se escondendo de suas respectivas patroas.
_Minhas viagens a Maiame tem piorado a cada dia. Os charutos daquele escote bar na rodeio draive por exemplo, só tem servido charutos peruanos! Imagine, eu pago o preço de cubanos. O que um homem deve fazer para ter seu Corriba? Eu tenho que comer quem ali _ e ria, peço que imagine-o com a mão, cheia de anéis com pedras enormes, na barriga, envergando o corpo pra trás e expelindo o som "Hohohohoho", babando em alturas. Depois começava sua palestra sobre os sabores de um Blue Label, coisa que nenhum dos pobres trabalhadores mortais que gastavam suas noites ali, saberiam dizer, quiçá de uma pinga de mais de três contos. Depois falava da má qualidade dos camarões graúdos do Brasil
Eles não conseguiam aguentar as vantagens que aquele emergentezinho lhes impunha. Pense, como saber do sabor de um malte num whisky de setecentos paus, se o que mais lhes agrada é o gosto da pele de porco metida a bacon que suas respectivas patroas mergulhavam no feijão do almoço.
Eram frequentes comentários como _ Nunês, traga-me uma boêmia na taça, esses copos me dão asco _, ou _ Nunês, ponha um João Gilberto que esses pagodinhos me fazem sentir pobre como vocês.
Não havia frequentador, pelo menos os que já conheciam a peça, que se habilitava a começar um diálogo com o importuno. Logo seu dedinho coçaria a rala barbicha para mostrar a safira e o nariz se empinaria de um jeito que os pelos de lá começariam a encomodar. Assim como os peitos de silicone que pulavam para fora do vestido justo da mulher dele, quando ela vinha buscá-lo. Pareciam bolas de futebol americano, com bicos de mamadeiras de elefantes.
Por anos a clientela pedia pro Nunes expulsar o encosto de luxo, mas o homem era catedrático, _ a situação é a seguinte: Enquanto vender cervas de seis real e cigarros de cinco real pro mocinha, ele se mantem no estabelecimento, correto? _ e se mantinha na posição de comerciante a favor do livre comércio e de grana em caixa.
Certa sexta baixa no bar um ser assemelhado a Mario: Camisa prada, mocassins de cobra, um cheiro de notas recém impressas e um rolex reluzente até naquela noite. Olhou para todos os lados, num olhar de sem expressão e semicerrado, e se ajuntou em uma mesa que nunca era ocupada, perto do balcão e da mesa do almofadinhas já recorrente. Como animais que reconhecem a mesma espécie, eles se olharam, de cima a baixo e Mario quebrou o silêncio _ O senhor tem bom gosto eu diria _ feliz de ver um de seus iguais.
O outro badulaque social fez uma expressão de alguém que come algo amargo e balançou a cabeça com aquele mesmo olhar de insone que entrou.
_O senhor não sabe com quem está falando, sabe? _ peitou Mario levantando da mesa e jogando a cadeira para trás. A resposta veio a cavalo, floretes em riste para um embate. Seria algo como dois pavões numa ringue de Ultimate Fighting.
_ Sim, alguém que compra sapatos falsos de jacaré, usa um relógio falso e dirige carro de classe média_ Isso foi um Jab e tanto! Os clientes do Nunes se juntam, forma-se um círculo.
_ Sua peruca é tingida! _ Pof! 10 por um no riquinho novo e crescendo _ Seu botox é financiado _ Kapow! As cadeiras são arrastadas_ Sua mulher tem tantas plásticas que de sexo quatro pra vocês é na nuca! _ Badabum! Apagam-se as luzes e deixam apenas uma para iluminar o ringue _ Seu filho dirige um Uno! _ Tabefe! O sangue sobe à cabeça _ Sua filha está grávida de um hippie! _ Crash! O nível das ofensas cresce e os nervos estão em crise_ Seus vinhos você compra na padaria! _ outra onomatopéia pra pancada (cansei disso, fodi com o climax do texto... saco)! O grand finale se aproxima!_ Você deve ser corintiano!
...
Silêncio geral. As pessoas voltam para seus lugares, todo mundo faz cara de que aquilo passou da conta. Nunes se faz a própria cara do demônio, vermelho como tal, seus bigodes de portuga sexta geração se arrepiam os punhos cerrados sobre o balcão.
_ Pera lá seus comedores de croassão de merda! _ baba lhe escorre nos cantos da boca _ Ninguém fala mal do meu Curitia! _ Eu aguento suas frescuras e aceito seu dinheiro, agora ouvir vocês falarem mau do meu curítia é uma coisa que eu não vou aguentar nunca nessa minha vida _ E expulsou os sujeitos na bala.
Hoje eles se entendem, tem um caso de amor conjugal, um com o outro naturalmente, mas não passam na frente do bar do Nunes.

Por que ser assim?


Eu me valho dessa boehmia, sempre

Seja careca ou cabeludo

porque se Apolo ou Dionísio me puxam de um lado para o outro

Eu sou mais meu Pã sorridente

São os deuses, em seus comandos sem sentido

Nos fazem divagar eternamente.

Pois afinal, se Eros e Thanatos se enroscam até o fim de nosso dias

no fim, restará só um pouco do que eu deixei em cada um

bem

bem

bem

pouco

E valeram apenas as gotas que bebi

E a ternura que espalhei

Parlenda inútil

Eu começo a entender certas coisas. Caminhos e escolhas que fazem resultados absurdos no que a gente chama de realidade. É como plantar um feijão e vê-lo crescer. Talvez sejam alguns metros a mais, ou talvez não. Aqui, ao pensar nessa questão, se encerraram litros de boa ventura e fantasia. Eles foram derramados pelo sentido que fez o cerco este dia, que se encarregou de tirar a tampa daquilo que ainda guardava meus interesses pueris.
Não que ache isso errado, mas eu peço para que ela não a leve toda, a fantasia.
Pois o que vale um homem sem seus delírios? Eu diria que nada. E, ao me ensinar essas lições que direi, penseis cá em meus botões: O que vale um homem que jaz neles, seus delírios?
Agora, diria que nada.
Eles, os delírios poderiam vir em prateleiras, que quando quiséssemos alcançá-los apenas esticássemos os braços e os puxassem.
Já que isso não existe, as vezes devemos sangrá-los para não nos afogar em desespero .Para dizer sobre os dois, entenda, leitor que não tenho como caro ainda, o desejo vil comanda suas partes como um títere portando sua melhor marionete. A ele, cabe-se bem sua parte no decorrer do crescimento da planta. Ou melhor, do fim do caminho, que não é tão importante, mas faz os pés se seguirem enfim.
Quanto a esse caminho, seja como quiser formalmente chamá-lo de destino ou coisa que o valha, ele é o tão nescesário, todo a sorte de reverências, nem o começo nem a chegada valem tanto quanto pensamos. Porque aquilo que se pensa no meio dele, entre tênis furados, entre cansaço e falta de escolha e poder, o faz importante. Sabe, é preciso negar-se, é preciso destruir-se nele, é preciso morrer-se em si mesmo e talvez, talvez apenas renascer nele.
E, talvez de novo, seja por isso o motivo de os monges falarem tanto nele e meditar sua vida inteira para fugir dele.
Eu não meditaria a minha vida toda sem vivê-la...
São, por fim as escolhas, como essa que pensei acerca de monges que sei, não meditam a vida toda, que eu diria
me aporrinham feio.
Escolhas cacetes!
Preferia não tê-las!
Não, preferia não pensar nelas!
Ou não ainda!, vê-las crescer em resultados inesperados como esquisofrênicos falando de futebol, sem participar delas, assim como disse sobre feijões, tal qual jardineiro observador de ervas-daninhas, faz o melhor dos bardos entre aqueles que nos parlendam todos os dias, algo que não fui nesse monólogo idiota acerca de reflexões. Seria um monge se apenas observasse, e não quero! Já lhe disse!
Não sei de todo o que fazer com elas.
Por isso. não te fiz observação que seja proveitosa, ou mesmo que não saibas, ou ainda que queiras saber.
Entretanto, meu agora caro leitor, tenho ainda minha pachorra de dizer-lhe para ter cuidado em aonde e quando queres pisar.
Depois de tantos blogs, e tanto tempo, o cronista de quintal pode crescer sim.

Espero que sim!

São 6 e pouco e fiz uma crônica de quintal, depois de tanto tempo!

Isso deve valer, mesmo que não haja nada de especial nela

Talvez o jejum que ela quebrou

Ou pode ser a cerveja e as cinco horas da manhã.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Poemaldito

Segura-te a sede de verbo, boca maldita!
Que o açoite é a sorte do espanto
Que o chão é a moléstia do encanto
E quem conta um conto, sabe a garganta que tem